A gota que faltava


______________________________________


De gota em gota, o rio ganhava corpo. Antes, invisível, parecia apenas uma lenda de tempos de bonança. Restara apenas suas pegadas. Sua marca na caatinga. As plantas "morreram". Não restava nada para elas além do suicídio temporário de suas folhas. A estiagem as obrigava a realizar tal sacrifício.
  Mas, de repente, as gotas caíram do céu. Era apenas gotas. Pequenas, insignificantes. Cada uma não pesava mais do que alguns miligramas. Quem sabe, microgramas? Não sei. Nunca as medi. De qualquer forma, cada uma não era nada. Não importava. Uma gota de suor. Uma gota de esperança. Uma gota que faltava.
   Mas, as gotas foram se acumulando. Em sua revolução, criaram poças d'água. Já tinham uma forma mais clara, visível. Mas, não era suficiente. Escorriam pelas folhas, caules e pedras. Se uniam numa pequena correnteza. Estavam rumando para o destino de toda a água: o mar. 
  De correnteza em correnteza, se formavam pequenos riachos. Eles se encontravam e formavam os rios. Os rios moviam o país. Davam vida às plantações e esperança aos plantadores. Bastava uma gota para avisar às sementes do novo clima, da nova oportunidade de existência e perpetuação de sua genética.
  O mato, insignificante, morto, esquecido, queimado, ressurgia qual fênix. A vida tornava a lutar por sua existência. Estavam acostumados ao sertão, ao chove e não chove. Nós, por outro lado, tínhamos muito a aprender. Desperdiçávamos água quando a tínhamos e esquecíamos de acumulá-la para os dias difíceis. 
  Sobrevivíamos de caminhões-pipa. Estavam cheios de água, mas vazios de soluções, como os políticos.  Era apenas o pão e circo iludindo as dores centenárias de uma terra que carecia, não de água, mas principalmente do fim do arame farpado. Haveria de mudar algum dia. De gota em gota é que as coisas vão se transformando.


Alexandre Valério Ferreira

 

Comentários

Veja também