Diário da jangada

Jangada. Foto: autor.

   O dia começa bem cedo. Preparam-se as redes. Os jangadeiras ajustam alguns troncos para me deslocar em direção ao mar. Sim, o mar... O mar parece tem uma certa aversão a estranhos. Por meio de fortes ondas, aparenta ter uma certa fúria, dificultando o acesso a seu interior. De fato, se requer muita paciência e força para superar essa apatia inicial.
   Depois que os jangadeiros me lançam ao mar, inicia-se o desbravamento por locais nunca pisados pelo homem. Navegados, talvez. Entretanto, nunca passamos pela mesma água. Afinal, ela está em constante movimento, evaporando, indo para longe e voltando por meio dos rios. É um ciclo contínuo e complexo. Se pensar bem, é até poético essa aventura das águas.
   Bem, não entramos no mar à toa. Existe um objetivo: pescar!   Não é uma pesca por diversão. É uma questão de sobrevivência, tanto para mim, como para os pescadores. Se não tem pescado, não tem renda. Se não tem renda, não tem recursos para melhorar ou fazer minha manutenção  E, sem isso, eu não duraria muito tempo. Afinal, sou de madeira e aqui há muita umidade. Sem cuidados, duro pouco.
   De longe, vejo uma selva de prédios. Cada vez mais distante, conseguimos perceber o quanto os humanos (e eu também), somos insignificantes. Claro, tudo é relativo. Na praia, enxergamos enormes construções. Algumas, até nos espantam. Entretanto, quanto mais nos aprofundamos no oceano, mais percebemos o quanto somos minúsculos em relação à Terra. Não somos nada.
  Percebo, entretanto, que o ser humano possui certa deficiência visual. Não todos, apenas a maioria deles. Acho que é algum defeito em alguma parte do cérebro deles. Notei que não conseguem sempre ter essa minha visão de mundo.   
  Parecem não se aperceber sempre que a natureza é maravilhosa e que eles tem afetado ela apenas negativamente. Todavia, dependem totalmente dela. É dela que se obtêm o alimento e a matéria-prima para diversos objetos. É deste oceano imenso sobre o qual eu, em toda minha humildade, estou a navegar, que contem os fitoplânctons. Estes são a principal fonte de oxigênio (cerca de 98%) essencial para os humanos.
    Bem, o mar é uma fonte de inspiração. Apesar de sua apatia inicial, noto que seu coração é profundo e habitado de vida. Fornece oxigênio e alimento. Fico feliz em navegar, em ser uma jangada. Apesar dos dias tempestuosos, tenho orgulho de estar aqui, navegando esse "deserto" azul. É uma aventura. E, como em todos os dias, completamos a viagem com um belo pôr-do-sol.



Alexandre Valério Ferreira



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