Precipício



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Beirando o precipício, eu estava. Sentia medo? Não mais. Como era possível? Envolvia muitas coisas. Entre elas, uma mudança na forma de pensar. Sofrer metamorfoses é essencial para nosso avanço no tempo e na vida.
   Na primeira vez que me aproximei daquela pedra, senti muito medo. Achava que a qualquer instante eu deslizaria precipício abaixo. A morte parecia pairar por todos os lados e tudo estava fora do meu controle.
  Controle. Doce ilusão que nos tranca em mentiras que nós mesmos inventamos. O medo criava a ânsia pelo controle. Afinal, parece racional que, a medida que adquirimos mais informações, mais seguros ficamos. Não percebemos que muitas vezes acontece o contrário quando não avançamos na direção e da forma correta.
   Na segunda vez que fui na beirada do precipício, um ano depois, eu já não era exatamente a mesma pessoa. Já sabia o funcionamento do medo. Eu tinha medo de que ia me jogar dali de cima e isso me deixava aterrorizado. "Medo que dá do medo que dá", sabiamente cantou Lenine. Medo de ter medo. E com ele inventamos justificativas. 
   Quando me apercebi o que era a realidade, que eu pularia apenas se quisesse e eu não queria. Sabia dos riscos e aceitava eles. Reconhecia os perigos e agia com bom senso. Não me arrisquei desnecessariamente. Já entendia o que era real e o que não era na minha mente. Ela mentia para mim para me proteger de um perigo que eu me ensinei que supostamente existia. Quando me atentei para essa angústia, deixei de ter medo. 
   Assim, pude apreciar a beleza do horizonte maravilhoso, do cenário sem igual que só era possível para os que se aventurassem a ir até a ponta daquela pedra. E se a pedra quebrasse? E se um raio caísse? E se eu tivesse um infarto? E se eu escorregasse? E se alguém me empurrasse? E se eu desmaiasse? 
  Todas as perguntas pareciam lógicas, mas no fundo disfarçavam a essência que era apenas o medo. Ao me livrar dele e aprender a usar o bom senso e o temor para se prevenir, a vida se tornou mais agradável. Nosso problema é ter um desejo irracional por um tal de um controle de tudo que supomos que nos trará verdadeira paz e segurança. Ao buscá-lo, acabamos nos precipitando num buraco sem fundo.



De Alexandre Valério Ferreira




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